Blog — Amigos do Bem

Indo bem longe para fazer o Bem

Indo bem longe para fazer o Bem

Indo bem longe para fazer o bem

A empreendedora social Alcione Albanesi, fundadora da ONG Amigos do Bem, costuma comparar a pobreza a um poço. “Se você não dá as mãos, ninguém sai de um poço.”

No fundo desse poço, segundo ela, estão sedimentadas as experiências de muitas gerações. “São séculos de miséria. Avós, pais e filhos repetindo roteiros semelhantes.” O papel da organização que criou há 33 anos, em sua visão, é dar condições para as famílias saírem da escuridão da fome e do analfabetismo e alcançarem um lugar de existência mais iluminado.

Com uma agenda sempre sobrecarregada, nossa convidada marcou, de última hora, um exame médico importante depois da entrevista. Para isso, precisa permanecer em jejum. O prato principal do cardápio, portanto, o polvo Vicky Barcelona, grelhado com batatas, brócolis, tomatinhos doces e molho romesco, será devorado por ela somente após o tal exame. Escolho o “peixe do dia”, servido com molho de moqueca de camarões, arroz de amêndoas e farofa de banana, mas logo me arrependo. A repórter oferece solidariedade e se dispõe a jejuar com ela ou a só comer depois da entrevista. Ela não aceita.

A trajetória dessa empresária e liderança de impacto social é narrada na autobiografia “Coragem de transformar – A escolha que mudou tudo” (Editora Gente, 256 págs., R$ 60). Lançado durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, neste início de setembro, a obra percorre aprendizados, realizações, erros e acertos que a levaram a ser reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o título de primeira líder no ODS 1, que visa a erradicação da pobreza no mundo e que integra os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Em poucos dias do lançamento, segundo sua assessoria, o livro havia vendido 5 mil cópias e foi para o primeiro lugar em lista de mais vendidos.

Embora reúna histórias inspiradoras e que podem servir de referência para empreendedores e organizações sociais, sua intenção, segundo ela, não foi dar destaque às “vitórias”, mas sim aos muitos momentos de sua jornada em que não sabia exatamente para onde estava indo. “Eu não conto das glórias. Eu falo das dores, das noites traiçoeiras.”

Um exemplo é o incêndio que destruiu o galpão da Cidade do Bem, em 29 de maio de 2016. Localizado no distrito de Catimbau, município de Buíque, a 285 quilômetros do Recife, o centro de distribuição armazenava doações e castanhas produzidas pela ONG na região onde o trabalho teve início, em 1993.

Era domingo e Albanesi trabalhava no escritório, quando alguém entrou correndo para avisar que o local estava pegando fogo. Ao sair da sala, avistou a fumaça subindo a cerca de um quilômetro de distância. Em poucas horas, perderam-se anos de esforço: mais de 30 mil cestas básicas, milhares de roupas, cerca de 100 mil brinquedos e toda a produção anual de castanha-de-caju, importante fonte de renda da instituição.

Os bombeiros demoraram. Quando chegaram, segundo ela, o caminhão quase não tinha água. Os moradores, então, começaram a aparecer. Alguns montados em jegues. Traziam baldes, os quais enchiam de areia e atiravam contra as chamas. O fogo foi contido com areia do sertão.

Na hora da tragédia, os beneficiários das doações viraram voluntários.

Outra “noite traiçoeira” remonta ao início de sua carreira profissional. Em 1992, Albanesi apostou praticamente tudo o que tinha no que parecia ser um “negócio da China”. Acabara de fundar a FLC, fabricante e distribuidora de lâmpadas econômicas, e decidiu ir atrás de novos negócios. Antes de haver internet, tradutores eletrônicos ou Waze, importar da China era, como ela diz, “um verdadeiro labirinto”. Teve que contar com a ajuda da recepcionista do hotel e da lista telefônica para localizar potenciais fornecedores, atirando-se em território desconhecido.

Foi assim que encontrou uma fábrica de lâmpadas econômicas. Na China, cada lâmpada custava US$ 0,36, enquanto no Brasil o preço era equivalente a US$ 3. Seria uma grande jogada. Encomendou dez contêineres, um total de 333 mil lâmpadas.

Chegando a São Paulo, nenhuma acendeu. Além do prejuízo, teve que pagar pelo descarte dos produtos, já que as lâmpadas continham componentes tóxicos. “Você vê seu sonho indo embora”, lembra. Também pesavam as vozes daqueles que tentaram dissuadi-la da viagem. “O que você vai fazer na China? Alcione, sossega.”

“Eu sempre tive uma luta contra o que eu queria fazer e o que as pessoas achavam que eu deveria estar fazendo. Isso foi a vida toda.”

Alguns anos depois dessa viagem, a FLC tornou-se líder de mercado em lâmpadas econômicas no Brasil.

Uma cena tragicômica, envolvendo bodes e cabras, é outra encrenca narrada por ela no livro. Como empresária, Albanesi sabia calcular, vender, administrar estoques, dinheiro e pessoas. Quando começou a viajar ao sertão, levou consigo essa racionalidade cartesiana, acreditando que seria suficiente para dar conta dos desafios na região.

Nos primeiros anos da Amigos do Bem, a urgência da fome era tão patente que a equipe, formada basicamente por amigos e voluntários, buscava maneiras de ajudar as famílias a produzir o próprio alimento. Surgiu então uma ideia aparentemente engenhosa: doar a 500 famílias um bode e duas cabras, para se reproduzirem, fornecerem leite e se tornarem uma possibilidade de sustento e de receita.

No papel, a ideia era ótima, diz ela. Alguns meses depois, com grande expectativa, Alcione voltou às comunidades, para conferir o resultado. As cabras e bodes haviam virado churrasco. Faltara aos recém-chegados ao sertão uma informação básica. Uma cabra consome, em média, cerca de sete litros de água por dia. Para três animais, seriam mais de 20 litros diariamente, numa região onde as famílias mal conseguiam água para suprir as próprias necessidades.

Diferentemente do incêndio, o episódio hoje a diverte, ajudou a mudar sua mentalidade. A Amigos do Bem aprendeu, assim, a trocar a lógica do “o que podemos entregar?” pela pergunta “O que realmente funciona aqui?”.

Desse “fazer, foi se desenvolvendo, ano a ano, uma estrutura de grandes proporções. Hoje, a instituição atende a cerca de 150 mil pessoas em 96 povoados no sertão nordestino, nos estados de Pernambuco, Ceará e Alagoas. Desse total, aproximadamente 10 mil são crianças. São quatro Centros de Transformação, onde alunos de 4 a 15 anos participam de atividades socioeducativas, culturais, esportivas e profissionalizantes, no contraturno da escola.

Além disso, a ONG administra 4 escolas em parceria com os municípios, constrói casas e tem 18 unidades produtivas – fábricas de doces, pimentas e castanhas (250 toneladas por ano), oficinas de costura e centros de artesanato -, que já deram emprego a 1.800 pessoas.

Na zona leste de São Paulo funciona a Central do Bem, espécie de retaguarda da operação. É lá que boa parte dos mais de 11 mil voluntários da organização se reúne para separar doações, montar cestas básicas, recuperar brinquedos e produzir enxovais que viajarão milhares de quilômetros até os povoados atendidos.

Bonecas chegam quebradas, riscadas, com cabelos embaraçados e roupas rasgadas. São desmontadas, lavadas, penteadas e recuperadas até voltarem a ser brinquedos de verdade.

Em outro setor, mães que perderam filhos costuram e fazem crochê para montar enxovais destinados a bebês que ainda vão nascer. Albanesi encontrou uma expressão para o lugar: “A central é onde o amor trabalha”.

Uma sala de gestão lembra um cockpit, com telas e informações sobre a operação. As famílias atendidas são cadastradas individualmente e identificadas por código QR. O sistema permite acompanhar o que foi entregue, para quem e em qual comunidade. Estoques e doações também são digitalmente controlados.

Empresas de todos os setores fazem doações em dinheiro, bens e até prestação de serviços, garantindo passagens de avião para os voluntários e colaboradores, caminhões para o transporte das doações e até carros do ano para a formulação de prêmios em sorteios.

A atuação é apartidária e, segundo Albanesi, não recebe verbas governamentais nem se beneficia de incentivos fiscais. “Vivemos de doações de empresas e pessoas físicas e das receitas com as vendas dos produtos. Sustentar um trabalho desses é sempre desafiador, temos uma inadimplência de 30% em pessoas físicas”, afirma Albanesi. Significa que 30% das pessoas que se comprometem a doar com recorrência acabam deixando o compromisso para trás.

O polvo Vicky Barcelona chega à mesa para as fotos, e a entrevistada considera desistir do exame médico. “Será que eu aguento?” A sua respota a ela mesma é firme e a apenas sorrir para a fotógrafa.

Albanesi evita dar o valor das doações anuais, porque diz que isso prejudica a arrecadação. “Podem pensar que somos uma ONG rica, mas a luta é grande”, afirma.

A dificuldade de financiar uma operação desse porte está longe de ser exclusividade da Amigos do Bem. A sustentabilidade financeira é hoje o principal desafio das organizações da sociedade civil no país. No “Panorama das ONGs: Capítulo Brasil”, parte do World Giving Report 2025, produzido pela Charities Aid Foundation (CAF) em parceria com o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis), 81% das 170 organizações brasileiras ouvidas apontaram esse ponto entre seus três problemas mais urgentes. Praticamente é o mesmo patamar observado globalmente (80%).

As dificuldades, avalia Albanesi, envolvem uma crescente disputa por recursos e contratos, pela previsibilidade das receitas e, sobretudo, pelo tipo de dinheiro disponível: enquanto parte das verbas chega vinculada a projetos específicos, são os recursos de uso livre que permitem pagar estrutura, manter equipes e sustentar a operação cotidiana.

Segundo a organização, 90% de cada real arrecadado é destinado diretamente aos projetos. A ONG também submeteu seu trabalho a uma avaliação de impacto social realizada pelo Idis. O cálculo chegou a R$ 6,45 em impacto gerado para cada R$ 1 investido.

É na educação que os esforços da instituição produziram alguns de seus resultados mais expressivos. O programa educacional da Amigos do Bem, criado em 2013, partiu de uma realidade pouco promissora. Naquele início, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) registrado pelas escolas nos povoados estava em torno de 3,5.

A nota, porém, evoluiu ano a ano, e, em 2026, a Escola Amigos do Bem de Inajá, município pernambucano, alcançou 9,8 nos anos iniciais do ensino fundamental, a maior nota registrada no estado nessa etapa e muito acima da meta nacional de 6.

O resultado reflete um modelo que combina ensino em período integral, acompanhamento individual dos alunos e formação contínua dos professores. Há capacitações mensais, além de um período intensivo em janeiro dedicado à preparação da equipe. A organização também desenvolve materiais pedagógicos complementares para crianças que apresentam dificuldades específicas.

Segundo Albanesi, melhorar o desempenho escolar dependia de conhecer mais de perto as realidades dos jovens e das crianças. A visita domiciliar tornou-se uma etapa da matrícula: antes da admissão, a equipe procura entender com quem a criança vive, se é criada pelos pais ou pelos avós, se há alcoolismo, violência doméstica ou outra circunstância capaz de comprometer sua frequência e aprendizagem.

As distâncias também são um obstáculo para que as crianças frequentem a escola. A organização usa veículos doados por uma grande montadora para buscá-las num raio de até 30 quilômetros. Quando alguém começa a faltar, dois técnicos da ONG visitam a casa do aluno para saber o que houve. Mais de cem voluntários da área pedagógica e profissionais de apoio participam periodicamente do acompanhamento dos centros.

Depois da implementação das medidas, a frequência nas escolas aumentou e hoje supera 90%. A evasão é quase inexistente.

Albanesi insiste que, em ambientes de extrema vulnerabilidade, antes de ensinar determinados conteúdos pode ser necessário reconstruir a percepção que a criança tem de si mesma e daquilo que acredita estar ao seu alcance. “A pobreza determinou onde a criança nasceu. Não pode determinar aonde ela vai chegar.”

Inajá, portanto, transformou-se agora em referência para o passo seguinte. Um novo Centro de Transformação está para ser inaugurado no distrito de São Domingos, em Buíque, com 11 mil m² de área construída e 52 salas de aula e espaços de aprendizagem, preparados para receber 2 mil crianças do Ensino Fundamental 1 em período integral, vindas de 31 povoados.

Entre os futuros alunos estarão estudantes de sala seriada e escolas multisseriadas, unidades rurais onde crianças da primeira à quarta série dividem a mesma sala, enquanto um único professor conduz, simultaneamente, as diferentes etapas do processo de alfabetização. “Não tem como a criança sair alfabetizada desse jeito”, diz Albanesi.

O exemplo da jovem pernambucana Shara Leite ilustra bem o impacto do programa na vida dos habitantes locais. Shara chegou ao projeto ainda criança. Filha de pais analfabetos, formou-se em pedagogia, em 2021, pelo Centro Universitário Inta (Uninta), no polo de Catunda (CE). Depois voltou à faculdade e cursou letras e língua portuguesa, formação concluída em 2025 pela Unopar/Anhanguera, no polo de Arcoverde (PE).

Em setembro de 2024, ao lado de Albanesi, Shara contou sua história para uma plateia reunida em um evento na ONU, em Nova York. “A maioria dos nossos alunos que chega à faculdade será o primeiro da família a conseguir um diploma”, diz Albanesi.

Agora, Shara está sendo preparada para assumir a direção do novo Centro de Transformação de São Domingos. Ali, ela vai estender as mãos para tirar outras crianças do poço.

Tanta dedicação ao projeto cobrou de Albanesi um alto preço. Boa parte desses 33 anos de trabalho foi feita de renúncias e ausências familiares. Todos os meses, ela passa pelo menos dez dias no sertão, a milhares de quilômetros de São Paulo. Perde aniversários, festas e encontros. Há muito tempo evita até aceitar convites para ser madrinha: nunca sabe com segurança onde estará na data marcada.

“Esse contrato que eu assinei com Deus, eu não li as letras pequenas. Não considerei a distância”, brinca.

Sua mãe, Guiomar, de 99 anos, é sua fonte de inspiração. Com suas obras de caridade das quais Albanesi participava desde menina, ela influenciou a filha no caminho da solidariedade.

E apesar de tanto tempo distante, seus quatro filhos também se aproximaram da causa da mãe e hoje participam como voluntários das atividades da Amigos do Bem. Albanesi é ainda avó de oito netos, que lamenta ver muito menos do que gostaria.

Ela própria reconhece a dimensão da renúncia. “É diferente fazer o bem de perto. Você ajuda o asilo, mas fica com seus filhos. Eu fui fazer o bem bem longe”, afirma. “Costumo dizer que tenho 150 mil filhos no sertão.”

Albanesi gostaria de ter mais tempo para filhos e netos. Ela diz que espera que eles também estejam atentos às necessidades alheias e que sejam capazes de fazer diferença na vida de quem estiver por perto. Mas, no fundo, afirma que gostaria que o caminho deles fosse um pouco mais leve.

Gostaria, sobretudo, que herdassem a empatia sem, necessariamente, carregar o mesmo grau de cobrança que impôs a si própria ao longo dos anos.

Segundo a empreendedora social, essa é uma concessão importante para as próximas gerações: fazer muito pelo outro não precisa significar exigir de si mesmo tudo, o tempo todo.

Confira também o Livro de Alcione Albanesi:
Coragem de Transformar – Site Oficial